Nesta tenda não se dorme. É a tenda dos mais-velhos e de receber visitas. Por isso tem espaço para várias pessoas estarem de pé. Abdullakhan senta-se na terra com os filhos e deixa a manta e a almofada para as visitas.
Se Hamid Karzai aqui viesse, Abdullakhan recebia-o numa tenda assim. Nunca aconteceu e não acontecerá hoje, de certeza. O Presidente afegão está em Paris a pedir 50 mil milhões de dólares a enviados de 65 países e 15 organizações internacionais. Vai conversar com o líder francês Nicolas Sarkozy, o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, a secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice. Será a Conferência de Paris, para decidir uma estratégia de ajuda ao Afeganistão. À volta desta tenda dormem milhares de afegãos e é em nome deles, que fugiram à guerra perdendo família e quase tudo, que Karzai pede ajuda e essa ajuda eventualmente será dada.
O centro de Cabul fica a meia hora de carro, com trânsito. Passa-se um bazar cheio de gente, depois o acampamento dos nómadas kuchi e num baldio poeirento batido pelo sol está este acampamento de gente vinda do Sul, principalmente de Helmand, nos últimos meses. Algumas tendas são do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que dá um pouco de assistência a estes deslocados internos. Um dos membros do ACNUR, Abdullah, conhece os líderes tribais pelo nome e os homens abraçam-no, quando ele chega, acompanhado pelo PÚBLICO.Mas muitas nem são tendas inteiras, são bocados de pano cosidos com plásticos e mantas. As mais antigas têm uma base de lama seca, ou até paredes, o que refresca muito a temperatura. Nas outras está um calor sufocante e são só dez da manhã.As crianças brincam com pedaços de terra molhada em charcos. Amassam-na como pão. Correm entre o lixo. Têm as pontas dos dedos pintadas de henna. Têm pequenos ferimentos, crostas, problemas nos olhos. Quase todas estão descalças. As mulheres espreitam por trás de panos, sorriem, recuam. Os homens acocoram-se ao sol, a observar, com os turbantes cheios de pó.Um velho descansa, deitado no chão, à entrada de uma tenda aberta. Vêem-se velhos púcaros e pratos de lata. Passam pintos e galinhas.Na tenda das visitas há uma mota estacionada para aproveitar a sombra. Cheira a gasolina. Cheira a comida e a esgoto. O chão é de terra muito seca. O pó sobe no ar e entranha-se.
Abdullakhan crê ter 50 anos, mas parece ter muito mais. Pele curtida sob o turbante, barba grisalha, filhos ainda novos. Como a tenda dele é colada a esta, chama a mulher, Gulbibi, e ela vem, com a cabeça levemente coberta por um lenço. A burqa é absolutamente dominante nas partes mais pobres de Cabul, mas as mulheres à vista neste acampamento estão como ela, apenas de cabeça coberta.
Gulbibi e Abdullakhan têm oito filhos. O mais novo ainda mal anda, o mais velho tem 15 anos e trabalha na cidade para ganhar algum dinheiro. Vão entrando e saindo da tenda, ora acocorados, ora sentados na terra. Como todos aqui, são uma família pashtum, a etnia dominante no Sul e Leste do Afeganistão. Abdullakhan conta que vieram da província de Helmand, distrito de Sanguin, aldeia de Khasho, deixando as terras.
Que cultivava Abdullakhan?"Papoilas", responde naturalmente. E depois acrescenta: "É a única forma de ganhar dinheiro." O campo onde trabalhava tinha quatro jarib, uma medida que ele diz corresponder a um terço do acampamento. "Eu não era o dono, trabalhava lá." E ganhava à colheita, de quatro em quatro meses. "Um lak", diz ele, o que equivale a 100 mil afganis (50 afganis valem um dólar). Esta era a vida de toda a gente nas redondezas. Até que foram apanhados num combate.
"Perdemos três pessoas da família, o meu pai, o meu tio e a mulher dele. Os taliban e a ISAF [tropas estrangeiras] não nos avisaram. Começou de repente." Abdullakhan conta que primeiro houve disparos e depois aviões.Isto aconteceu no começo do Inverno passado. "Tivemos medo. Pusemos coisas numa camioneta e fomos para Kandahar." Um pouco mais a oriente. "Passámos lá uma noite, mas continuámos a ter medo, porque a guerra estava à nossa volta. Então nós, alguns dos mais-velhos, sentámo-nos a falar e decidimos vir para Cabul."
Por quê Cabul, que de dois milhões de pessoas passou para quatro nos últimos anos? "Porque aqui é que estão as organizações internacionais que nos podem ajudar."Chegaram a Cabul num grande grupo de 60 famílias, cerca de 300 pessoas. "A ISAF, os soldados afegãos e algumas organizações deram-nos comida, tendas e rádios", conta Abdullakhan. "Mas depois não nos deram muito mais."
Como arranjam dinheiro para comer?"Alguns homens trabalham no bazar e o meu filho engraxa sapatos em Cabul", aponta. Nenhum dos seus oito filhos foi à escola. Passaram por uma madrassa, escola corânica, mas não sabem ler nem escrever.
Um homem acocorado a um canto da tenda protesta, ao ouvir esta conversa sobre a escola. "Perdemos gente de família, não podemos pensar na escola!" Chama-se Junahan. Começa a falar sem parar. Conta que acabou de perder uma parente. "Foi do calor, ela já não estava bem da barriga." Que idade tinha? "Três anos." Quando aconteceu? "Há uma hora." Junahan e a família estão à procura de um sítio para enterrrar o corpo.
PUBLICO - 12 Junho 2008